pulo

31 de ago de 2017

Filho


Filho é a prova concreta da sua continuação no planeta e que a lei das almas existem; inclusive suas provações. Tenho as minhas com Tutu, fato comprovado cotidianamente.

Me veio um menino doce, meigo, amoroso, tímido e sensível; tudo que já fui e na marra suprimi, matei ou involuí dentro de mim. E me vejo lidando, por vezes, comigo mesma;  me esforçando para não reproduzir os erros que tiveram comigo, ao mesmo tempo em que luto para amadurecê-lo, com o reles intuito de fazer com que ele sofra menos do que eu, na mesma idade.

E a Flavinha avoadinha da escola, se uniu ao Claudinho hiperativo e esquentadinho da sala de aula, resultando no atual Tutu. Obviamente passo perrengue num sistema de ensino público engessado, quantitativo e podante; pq embora Tutu seja inteligente, o excesso de cimento nos pés o incomodam, fazendo com que a mente fértil saia dos muros escolares, ou viaje no balançar dos lápis em suas mãos, resultando em inúmeros deveres sem conclusão; atitude que não combina com qualquer estilo formal de ensino.

E eu sofro horrores com isso, pq como qualquer mãe, não quero que meu filho sofra ou passe por discriminação, pq obviamente fiz projeções sobre ele (quem nunca?); pq como Pedagoga não queria ter um filho "problema" na escola (logo eu que trato e cobro os problemas alheios escolares com afinco); pq como cidadã queria um filho exemplar (sem me dar muito trabalho, rs). Mas como na vida nunca é aquilo que queremos, eu precisava fazer algo, antes de explodir em frustrações ou depressões.

E Tutu saiu do CMEI e foi para a EMEF, assim e alí, se iniciaram os meus grandes problemas maternos.

Eu que já tenho a fama de Pedagoga do Capiroto, agora sou a Mãe dos Infernos; tudo pq no início do ano letivo meu filho caiu numa sala cuja professora me chamou na segunda semana de aula para perguntar se meu filho era Autista ou TDAH; pq além de não compreender nada que o menino falava, não obteve laços com ele, não conseguia o atingir pedagogicamente e nem pessoalmente, e exigia que eu levasse Tutu ao Neurologista urgentemente para saber o que ele tinha.

Nas primeiras falas eu fiquei abobada, depois fiquei absurdamente ofendida, não só como Mãe, mas como Pedagoga. Obviamente ela não sabia minha profissão, mas fiz questão de dizer e mostrar; pedi os embasamentos dela e da Pedagoga em duas semanas de aula, perguntei o que ela fez para a adaptação dos alunos, que vindos de CMEIs, obviamente estavam "perdidos" numa EMEF tão grande como aquela; perguntei se ela era formada em Psicopedagogia ou alguma especialidade médica de alto nível para em duas semanas cogitar sobre qualquer problema ou distúrbio neurológico em seus alunos; enfim, falei e falei muito. Discursei sobre o currículo e as normativas do Município, questionei a Pedagoga (muda até então) sobre que procedimentos ela tomou em 2 semanas de aula com meu filho e se ela tinha conhecimento de quem ele ao menos era, além de perguntar como uma professora tem a coragem de "diagnosticar" os alunos, além de dizer que eles precisam ser quietos, que fiquem sentados em seus lugares, pq não quer ter problemas. Mas ao final da reunião, onde virou um grande monólogo da minha parte, pois tanto Professora quando Pedagoga  não possuíam mais capacidade de argumentação; falei que levaria Tutu ao Neurologista para que constasse que não me opus ao pedido da escola.

Na semana seguinte fui ao Neuro que ficou estupefato e obviamente disse que Tutu não era Autista e muito menos TDAH; mas possui baixa concentração, causada pela imaturidade, coisa que passa com o tempo e receitou um remédio de baixa dosagem para auxiliar meu filho e a escola parar de "encher o saco" nas palavras dele.



Retornei a escola, pedi uma Reunião Pedagógica com a presença do Diretor, o que infelizmente não ocorreu, e após expor tudo que eu tinha para falar, inclusive que o médico não daria nenhum laudo no início do tratamento, exigi a troca de turma para meu filho, alegando incompatibilidade da Professora com meu filho e agora a falta de confiança da Família com a profissional. A resposta da Pedagoga é que ela passaria esse meu pedido ao Diretor na data oportuna. Saí da escola, fui trabalhar e em casa, liguei novamente para a escola, querendo falar urgentemente com o Diretor. Obviamente ele não sabia de nada que estava acontecendo, concordou imediatamente com as minhas falas, prometeu transferir meu filho para outra classe e sanaria tal situação, tomando as devidas providências cabíveis sobre o ocorrido com as profissionais envolvidas. Em dois dias ele me retornou para avisar qual turma receberia Tutu.

Mais aliviada por Tutu estar em outra sala, sabia que não demoraria para ser chamada para outra reunião; a nova professora iniciou sua fala querendo defender a colega de profissão (percebe-se aí a fama que adquiri, não é?) e assim tomou a primeira resposta materna e pedagógica de minha parte, onde falei que a reunião era sobre o meu filho e se ela tinha algum questionamento ou fala sobre a colega de trabalho, que a fizesse à Direção Escolar, e que por ética não falaria sobre o assunto com pessoa não autorizada. Tanto Pedagoga (calada como sempre) e professora entenderam que, ou entravam no assunto do meu filho ou eu ia embora.

Sobre Tutu, nas demais reuniões que compareci, inclusive a do Plantão Pedagógico, a reclamação continuava a mesma; sua enorme distração, a mania de não ficar por muito tempo sentado, a demora em copiar do quadro ou em terminar tarefas; mas desta vez a professora falou sobre a maturidade e concordamos em algo. Pelo menos elogiou a leitura, alegando que melhorou muito. Mas alertou sobre a falta de sociabilidade: ele diz que não tem amigos e não se esforça em fazê-los, não tem prazer em sentar em duplas e que fica muito nervoso quando contrariado; na hora lembrei da personalidade do pai, e o xinguei mentalmente por ter essa genética danada. Tive até que ler um Termo de Compromisso, onde se marcou os problemas pedagógicos de Tutu e estava escrito que escola pede que a família se comprometa em ter dedicação ao estudo e ao comportamento disciplinar coerente com as normas de educação apropriada à convivência social, juntamente com uma observação a mão, de que a escola fez pedidos desde o início do ano, sobre um Laudo Médico de um Especialista, onde a família ainda não o entregou para a escola. Enfim, assinei tal documento e pedi uma cópia, até para levar ao Neurologista de meu filho, para ver se ele faz um laudo para a escola. Mas também exigi um relatório minucioso sobre o comportamento social e cognitivo de Tutu para apresentar para o médico em questão.

Algo precisava ser feito, pelo meu filho, pelo seu estudo e capacidade de aprendizagem, para meu ser parar de sofrer. La fui eu buscar por mais ajuda especializada para Tutu, fui nas amigas Pedagogas, na Fonoaudióloga, na Pediatra Homeopata, nos Florais, nos esportes, no Neurologista novamente; tudo para que ninguém da escola tenha a petulância de dizer que nada fiz ou não me importei, pq até escutei o célebre ditado: "Em casa de ferreiro, o espeto é de pau." Além disso tudo, como trabalho na área educacional pública, sei que não vou mudar o sistema de ensino e nem meu filho com sua imaturidade do dia para a noite; portanto iniciei 2º turno educacional nas tardes semanais.

Tutu na EMEF fez minha vida virar de cabeça para baixo; sumiu a empreendedora e empresária, ficou somente a mãe 24 horas e a  Pedagoga em 2 turnos. Claro que não lido com isso muito bem; ser Mãe eu até assumi, ser Pedagoga em dois turnos ainda estou digerindo, mas deixar o lado empresarial tem me consumido, num grau altíssimo devo dizer. Me dói ser só Mãe, Pedagoga e Dona de Casa; passei uma grande parte da vida fugindo desses rótulos e aos 40 anos me vejo mergulhada nessas 3 funções até o pescoço.

Praticamente abandonei minha loja, não aceito mais grandes encomendas; faço pequenas coisas, cuja produção seja de no máximo 2 dias e larguei os cursos on-line; a Scrapier atualmente está em Stand By.

As tardes são de apoio maternal pedagógico, ver os deveres do dia, auxiliar nas tarefas de sala não terminadas (são mandadas para casa), ficar perto no dever de casa e fazer os "exercícios da mamãe" sobre leitura; pq embora não exista a obrigatoriedade dela no 1º ano, foi nítida a exigência e obviamente Tutu ficaria aquém da turma sem ela.

Ser Pedagoga foi uma escolha, ser mãe uma decisão muito bem pensada, ser empresária uma realização prazerosa, mas ser dona de casa, sinto muito, nunca quis ser; corro de fogão e limpeza como o Diabo foge da cruz, rs.

E me sinto sobrecarregada. Me sinto frustrada. Me sinto derrotada em alguns momentos e obviamente, como ser crítica e muito pensante, fico procurando onde errei... Me questiono mais como mãe... Pq preciso saber lidar com o filho que tenho. Ele é a cara do pai, o comportamental do pai, a imaturidade do pai, mas tem o temperamento mandão da mãe, rs. Preciso lembrar o tempo todo que embora ele seja um espelho meu em muitos aspectos e em vários momentos, Tutu tem suas próprias particularidades, que vão aparecendo mais com o avançar da idade e precisam ser respeitados; mesmo que doa, mesmo que ele quebre a cara, mesmo que ele precise amadurecer sozinho na luta da vida.

Enquanto isso eu tento me controlar para gritar menos com ele, falar menos vezes a mesma coisa, exigir menos de um comportamento que ele ainda não tem, puxar menos ele para um padrão que, no fim, é inexistente e utópico; preciso deixar ele um pouco solto também. Dar mais beijos, mais abraços, mais carinho, mais calmaria, mais quietude mental, mais brincadeiras, mais amor.

Mas admito que ter um filho é um trabalho árduo, não são só flores, nem tudo é tom pastel. Ter filho é a certeza de mudanças internas diárias, de quebra de paradigmas, fim de projeções e sentir as falhas (pessoais ou não) com mais força do que antes.

É a mania terrível (sim, sou individualista e egoísta) de se deixar em segundo plano em prol do filho; é despir de si mesma para pensar no outro que coloquei no mundo; é se renegar por alguém e no fundo, gostar disso sem admitir.

Sinceramente, é mais fácil gerenciar, empresariar e formar adultos do que ser mãe; mas quando esse menino que gerei e veio ao mundo me enche de abraços apertados, beijinhos estalados e diz que me ama; todas as dificuldades enfrentadas perdem espaço na minha mente e a frase dele acalenta meu coração.

Espero, sinceramente, ser a melhor mãe que me é possível ser...

Tomara que o futuro sorria para mim!




Um comentário:

  1. As escolas nao tem capacidade de lidar com criancas. O sistema quer alimentar o sistema. Quando sentamos e conversamos sobre a nossa experiencia escolar, a unica certeza que tivemos foi buscar uma alternativa em waldorf ou montessori. Felizmente estamos numa escola montessori ( infelizmente apenas até a 4a serie), mesmo assim temos vários dos problemas acima descritos. Ser um adulto responsavel é a maior decisao, a maior possibilidade de alquimia e sim, caso escolhido, torna-se sempre a prioridade. Lembrando que estamos na matrix ... o trabalho eh secundario, o trabalho espiritual o mais importante. Namaste. Boa caminhada

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